Sentado ao balcão e debruçado sobre o meu copo, consigo ver o fundo do meu passado e regressar à minha infância.
Por vezes, escuto aqui ao meu lado, relatos de homens feitos, de lágrimas nos olhos a contarem sobre o que foram quando eram crianças e o que aspiravam a ser quando adultos. É de partir o coração. Fazem-no como se falassem de uma terceira pessoa, alguém que conheceram e que viajou e nunca mais encontraram, sentindo uma saudade imensa que lhes amargura o coração, uma dor tão forte que se alastra até mim e se instala numa tristeza que trago para casa.
Não me lembro de mim desta forma.
Aliás, não me lembro de mim a ter vontades de coisa alguma, ou sonhos de ser grandioso ou importante. Eu era lá, na minha infância, apenas um miúdo traquinas, muito endiabrado e muito feliz, muito ocupado a jogar à bola, a juntar colecções e a andar de skate, mas nada pensativo ou atirado com o que o futuro me podería ter em sorte ou os desejos que eu tinha para mim.
Era feliz no dia a dia, ou infeliz quando contrariado ou castigado por me comportar indevidamente e apenas isso.
Será que devería ter desejado mais ou faltou-me ambição e agora, ausente dessa tristeza, sofro pela dos outros?
Não sei.
Hoje permito-me outro gin, sinto-me infeliz porque os outros não souberam da simplicidade de se deixarem crescer. Só isso, sem complicações.
Até amanhã.
Chove.
Se calhar são as infâncias viajadas que choram porque se perderam.
 
Dia terrível em que tudo se complica quando me vejo na contigência de passar a maior parte do tempo enclausurado entre quatro paredes. Estou habituado a andar na rua, ver céu e asfalto, gente, muita gente, andar de lá para cá, trânsito, agora isto todo o santo dia enfiado no escritório com apresentações, papéis e o diabo a sete e uns Coreanos que vêm da sede é de deixar os olhos em bico a qualquer um!
Sinto-me enforcado na gravata, falta-me a poluição da rua, confesso a minha pouca concentração.
Há pessoas que têm a capacidade de se evadir dos espaços em que se encontram quando o mal-estar as invadem. Uma imaginação escapatória que as leva para outra dimensão e ainda assim, funcionam na perfeição.
Infelizmente, eu não sou dotado de tais qualidades extraordinárias e onde estou é onde estou, não consigo abster-me da realidade que me morde os calcanhares e por mais que me esforce, não arranjo outro espaço senão o do escritório que é onde me encontro.
Chegam os Coreanos, pequenas vénias, pequenos apertos de mão.
Acho que alguém me disse que eles comem peixe crú e que essa vai ser a ementa do dia.
Afinal enganei-me: A minha imaginação progride a trote para as imagens coloridas de uma gigantesca travessa de peixe e sinto o vómito eminente.
Como me surpreendo!
Agora é um questão de prática e tentar um pasto bem verdinho...
 
A maravilha de um balcão de bar reserva-nos a surpresa da igualdade mas também a nossa intimidade.
Diz-se que os barmen são os melhores confidentes. Mas também se diz o mesmo dos barbeiros.
Nunca pensei muito no assunto, sinceramente, talvez porque não tenha o hábito de contar da minha vida para estranhos. Para o homem que me serve o gin, trocamos algumas anedotas e opiniões sobre politica e futebol. Para o barbeiro, limito-me a pedir que cumpra com a sua actividade profissional, eu pago e saio, nada mais.
Mas no bar, aquilo que deveras aprecio é a paisagem dos que comigo emparceiram ao balcão.
Ficamos todos ao mesmo nível, não há cadeiras de poder, nem barreiras a separar-nos ao que viemos: um simples momento de tranquilidade para desfrutar a nossa bebida.
Não vou só para beber, ou vou também para acompanhar a minha introspecção com um gin, é mais isso, no fundo. Faz-me falta pensar o que fui ao longo do dia, rever-me e analisar como crítico o que fui.
Não sei se isto faz de mim um homem melhor, mas faz de mim um homem tranquilo, pelo menos um homem que não é ladrão dos sonhos dos outros.
 
Comprei um chapéu de chuva barato aos chineses, daqueles que se primem um pequenino botão e saiem disparados abrindo-se como um balão. Até aqui tudo bem, encantado, é só dar ao dedo e num instante fico resguardado de eventuais molhas. A questão é depois para fechá-lo, a coisa torna-se dificil, empurrar aquilo ao formato original obriga a ir a um ginásio e praticar musculação durante seis meses, o mecanismo tem ciência que implica um curso na NASA, e a água que não me molhou de inicio ao final vai descarregar-se em mim.
Mas todos estes problemas ficaram resolvidos à segunda vez de uso.
Ao saír do bar chovía como Deus quería, algum castigo que todos os mortais merecedores destas penas devem levar consigo para casa, cansados e saturados de um dia de trabalho, nada que melhor lhes assente, e eu não sou excepção pois devo comportar-me mal todos os minutos da minha vida.
Lá dei ao botão.
E a copa do chapéu ejectou-se para lugar incerto.
 
Vai para 15 dias que comecei a sentir aquela dor estúpida no joelho, tric-tric-tric, um estalinho na articulação de cada vez que me levantava, sentava, subía escadas. Sinal de chuva, mas vê-la nada. Era bom que nessa altura tivesse mesmo caído umas boas bátegas de água, ía-se o incómodo da dor e acabava este trabalho de que fui encarregue.
Foi mais ou menos por essa altura.
Lembro-me que recebi instruções e quando me levantei para saír do gabinete do chefe, o joelho deu-me uma guinada. Tentei ignorar, mas o corpo não é de fiar, aliás é a coisa menos verdadeira que existe: Num dia estamos bem, no outro estamos a fazer tijolo.
E o serviço que me entregaram era exactamente igual à dor do joelho: sem matar, moía que se fartava.
Durante 3 dias encostei a missão e fiz de conta que não era comigo. Depois, começou a preocupar-me e por fim tirou-me o sono. Imaginei uma série de soluções para entregar como justificação para não fazer o que me havíam pedido, detestava aquele tipo de serviço e parecía que quanto menos eu gostava mais atraía.
Entretanto, o joelho, a dor e chuva nem prenúncio.
Ontem, sobressaltei-me e consciencializei que não há nada a fazer a não ser cumprir com o que me ordenaram. E que este joelho velhaco ou a chuva mentirosa não vão alterar nada: É uma artrose.
Estou onde estou sempre no final do dia. A cada golada do gin tónico, passo revista aos momentos altos das últimas 24 h. Mas não encontro nenhum momento grandioso, entreguei o que esperavam de mim, que foi recebido sem nenhum comentário, quer agradável quer depreciativo e o sacana do joelho resolveu dar tréguas e agora nem o sinto.
Há dias assim. Em que nos entregamos a missões semelhantes às de um mártir e ninguém à nossa volta consegue entender quão hercúleo foi o nosso esforço. Quase se deixa de existir, tão leve é a nossa presença neste mundo.
Acho que hoje devería permitir-me tomar um segundo gin, mereço-o. Mas devo ter apanhado o hábito da condenação tão rápido quanto o senti nestes últimos dias, por isso pago e não bebo mais nada.
Até amanhã.
Que merda de vida, está a chover e eu sem guarda-chuva...