Apercebo-me agora das vantagens de andar a pé pela cidade.
Olha-se, observa-se, pára-se.
Tenho tempo para ver coisas que por detrás de um pára-brisas não me detenho, não ligo, não quero saber. Os ângulos confundem-se, misturam-se, desligam-se da realidade ou a posição de sentado para a do caminhante permitem outras perspectivas sobre a vida.
Tenho novos pensamentos, posso mesmo afirmar que nascem pensamentos diariamente da observação que faço, e este exercicio está a tornar-se tão agradável, que já acontece naturalmente.
Evidentemente, também há um lado negro.
Vejo miséria, muitos sem-abrigo, animais abandonados, casas em derrocada, miúdos a pedir e a drogarem-se.
Mas o mundo é isto. Uma tela de cores suaves e pinceladas de tons fortes para espevitar. Não vale a pena esconder o quadro no sotão só porque não vai bem com o resto da mobilia. Vai continuar sempre a ser um quadro.
 
Tenho saudades de me sentar ao balcão, não é de beber um copo, é de me sentar ao balcão com aquele pessoal, ter o meu bocado comigo mesmo, pensar na vida, contar os botões, ver o que eles me dizem nesse dia: Rei, Capitão, Soldado ou Ladrão?
Tenho sido soldado.
Tenho batido muito terreno, especialmente a pé por questões de economia, e o carro só quando vou para longe é que pego nele.
As grandes medidas da firma continuam. Os objectivos da minha equipa foram conseguidos e até ultrapassados, mas a de outros colegas não tiveram essa sorte e dois estão já com a carta na mão.
Apetecía-me ir ao bar e falar destes dois homens à malta.
Dizer o que conheço deles.
Por uma vez, ser eu a contar uma história que não acaba bem.
E todos a erguermos os copos à sua saúde.
 
Un gin.
Ou dois ou três ou os que forem necessários para esquecer, ou para me apagar por um bom bocado.
Ou então para levar este gosto para casa, para a rua, para vários dias ou até meses, sei lá!
Afogar as mágoas, não é o que dizem?
Antes eu me afogasse todo dentro de um copo, conseguisse fazer-me do tamanho do Oliver e me atirasse para dentro do gin, em directo e em cima do balcão!
Dizem que se bebe para esquecer, mas a cada gole eu lembro mais, provavelmente devería parar, assim talvez esquecesse o inicio do dia...
E a história começa desta maneira: Era uma vez um João que foi chamado ao gabinete do chefe. Ele e os colegas da equipa dele. Que a firma vai mal, que têm que fazer cortes, a ordem vem de cima, se os objectivos não forem alcançados alguém vai ser dispensado no próximo mês, blá, blá, blá, o resto é o olho da rua, e viveram miseravelmente para o resto dos seus dias!
Pronto.
 
Novo ano, esperança renovada. O que lá vai já passou e de mau concerteza não há-de piorar, porque agora mais experiente, creio que não irei cometer os mesmos enganos e a invenção é o engenho dos homens.
Entrei no bar muito bem disposto, animado, desejei um bom Ano a todos, tomei o meu lugar do costume, cumprimentei uma senhora que nunca lá tinha visto, por sinal muito bonita e que alindou o balcão (menina bonita, contei nos botões do meu sobretudo) e pedi o meu gin.
E planos para 2013? Projectos? Há sempre grandes decisões no principio do ano, não é verdade?
A economia está péssima, a taxa de desemprego atingiu uma percentagem altissíma, a lista de espera para uma intervenção cirúrgica nos hospitais estatais é de mais de 2 anos, os pontos de atraso que o clube leva nunca mais vão recuperar, o filho daquele tem quase 30 anos e não há meio de saír de casa dos pais, o outro escolheu um curso que ninguém ouviu falar, coisa caríssima!!!
Fui abalroado.
O momento era sério, resolvi tirar o sorriso e guardá-lo no bolso.
Pois, pois, pois, tinham razão, é verdade, tudo verdade. Mas hoje não podemos esquecer isso tudo e beber um trago a melhores dias? Não disse nada, só pensei, já tinha levado para assar.
A senhora bonita deslizou do seu banco e veio ter comigo. Disse-me que tinha planos para este Ano. Bateu no meu copo e disse que ía ser feliz.
Tchin, tchin!
 
Adoro o brilho da cidade em Dezembro, detesto o trânsito da cidade em Dezembro, adoro a luz da cidade em Dezembro, não gosto de ir ao bar em Dezembro.
Mas acabo sempre por lá ir.
É como picar o ponto, os pés acabam por nos levar lá inevitavelmente, mesmo sabendo que ao saír a maioria das vezes venho deprimido com algumas recordações que trago nos bolsos sobre histórias que ouço. Porque será que as pessoas em Dezembro gostam de contar histórias de pobrezinhos com finais felizes? Não é o final feliz que me arrasa, mas primeiro que cheguem a essa parte, há toda uma miserabilidade que me consome e destrói. Quando finalmente dizem que tudo ficou bem, já eu estou nas últimas e de coração partido sem capacidade para sentir a alegria que devería sentir.
Mais um gin, sff.
Assim, afogo-me mais depressa, pode ser que não sinta nada...
Só a chuva que começou a engrossar. Deixei o chapéu de chuva no carro. E o carro está estacionado a 1km daqui. Se correr, pode ser que passe pelos intervalos da chuva, não era o que se costumava dizer?
Feliz Natal a Todos.
 
O maldito joelho não tem dado descanso a este pobre guerreiro esfalfado e hoje não consegui encavalitar-me no banco ao balcão. Tive que ficar por uma das mesas. Claro que esta nova posição foi motivo de conversa para os habitués que não perderam a oportunidade de vir dar a sua alfinetada, lá do alto do seus banquinhos e de copo erguido.
Mas o curioso da questão, é que o novo poiso trouxe uma renovada perspectiva ao bar. Daqui vê-se a entrada sem ter que se rodar o pescoço; o alcance da vista para a sala é muito mais amplo e nitido do que fazê-lo através do espelho que está à frente do balcão e serve de retrovisor e, naturalmente limita a periferia; além disso, se houver algum par de pernas jeitoso ao balcão, é de facto um privilégio estar sentado à mesa! Agora entendo porque alguns cavalheiros não se abalam deste plano inferior!
Claro que existem inconvenientes.
Perdi a cavaqueira com os meus parceiros, a troca de galhardetes que sempre fazemos e nos arrancam algumas gargalhadas. Nada de mal, tudo inofensivo e que serve para nos atiçar a veia humoristica e a mais das vezes, a imaginação do palavreado sem entrarmos no calão rançoso impróprio para ouvidos femininos, que por lá também os há.
A verdade é que estou manco, um quase inválido.
Está frio, aperto os botões e conto-os à medida que me esforço para não coxear quando lhes aceno desejando bom fim-de-semana.
 
Sentado ao balcão e debruçado sobre o meu copo, consigo ver o fundo do meu passado e regressar à minha infância.
Por vezes, escuto aqui ao meu lado, relatos de homens feitos, de lágrimas nos olhos a contarem sobre o que foram quando eram crianças e o que aspiravam a ser quando adultos. É de partir o coração. Fazem-no como se falassem de uma terceira pessoa, alguém que conheceram e que viajou e nunca mais encontraram, sentindo uma saudade imensa que lhes amargura o coração, uma dor tão forte que se alastra até mim e se instala numa tristeza que trago para casa.
Não me lembro de mim desta forma.
Aliás, não me lembro de mim a ter vontades de coisa alguma, ou sonhos de ser grandioso ou importante. Eu era lá, na minha infância, apenas um miúdo traquinas, muito endiabrado e muito feliz, muito ocupado a jogar à bola, a juntar colecções e a andar de skate, mas nada pensativo ou atirado com o que o futuro me podería ter em sorte ou os desejos que eu tinha para mim.
Era feliz no dia a dia, ou infeliz quando contrariado ou castigado por me comportar indevidamente e apenas isso.
Será que devería ter desejado mais ou faltou-me ambição e agora, ausente dessa tristeza, sofro pela dos outros?
Não sei.
Hoje permito-me outro gin, sinto-me infeliz porque os outros não souberam da simplicidade de se deixarem crescer. Só isso, sem complicações.
Até amanhã.
Chove.
Se calhar são as infâncias viajadas que choram porque se perderam.